Log in

 

 

Cuidar pode provocar conflitos familiares

  • blogue
  • Visualizações: 8056

 

 Depois da morte súbita do pai, as irmãs McMahan tiveram que cuidar da mãe com 84 anos e do irmão com 53 anos que tinha deficiências cognitivas e deslocava-se numa cadeira de rodas. A relação entre as 3 irmãs sempre foi boa e próxima, mas a partir dessa altura começou a ficar tensa. Surgiram questões relacionadas com a divisão de tarefas, necessidade de descanso, aspetos legais sobre a propriedade da casa da mãe, sobre o futuro, e as conversas terminavam invariavelmente em choro ou em discussão.


As irmãs McMahan


Foi nessa altura que as irmãs resolveram recorrer ao serviço de um mediador familiar. Muitas vezes os filhos querem o melhor para os pais, só que têm perspetivas diferentes, e a função de um mediador de conflitos familiares é ajudar a descobrir quais são os interesses em comum, para que a partir desse ponto se possa trabalhar em conjunto na procura de soluções. O mediador não defende o ponto de vista de uma pessoa. A sua função é ajudar a resolver os conflitos de forma aceitável para todos os membros da família, de modo a permitir que o foco esteja no interesse de quem precisa de cuidados e na boa relação familiar.

O relacionamento entre irmãos é por vezes complexo e pode piorar quando têm que lidar com pais idosos dependentes, porque em situações de stress a qualquer momento podem ser desencadeadas emoções e conflitos antigos.

De acordo com um relatório de publicado em 2001 na revista “Conflict Resolution Quarterly”, quase 40 por cento dos filhos que cuidam de um pai têm um grande conflito com os irmãos. Essa desavença é invariavelmente sobre a quantidade de cuidados, dinheiro, disputa pela capacidade em tomar decisões ou apenas uma rivalidade profundamente enraizada sobre quem a mãe ou o pai gosta mais.

Nessas alturas surgem as diferenças de opinião sobre a habitação, cuidados, tratamento médico, e geralmente um irmão sente que está a assumir mais responsabilidade do que os outros. A principal queixa que surge é "por que razão os meus irmãos não me estão a ajudar?”



Cuidar pode provocar conflitos entre os familiares, reacender rivalidades entre irmãos que estavam adormecidas, e a discórdia pode separar a família. Quando os pais idosos começam a precisar de alguma forma apoio nas suas atividades de vida diária de modo a poderem manter-se em suas casas, podem começar a surgir conflitos familiares. Velhas rivalidades que estavam adormecidas podem ser reavivadas e a discórdia pode separar a família.

Muitas vezes, em virtude da distância entre residências, os irmãos que vivem mais longe da casa onde habitam os pais são menos participativos e quando existe uma distribuição desproporcional ou desequilibrada da função de cuidar entre os membros da família, pode surgir um sentimento de injustiça que promove o ressentimento.



Dentro da complexidade da dinâmica familiar, existem dois temas que podem surgir durante a actividade de cuidar:

1)   Sentimento de injustiça

2)   Disputa pela herança

Cuidar pode ser  por si só uma atividade stressante, e se somarmos ao stress o sentimento de injustiça provocado pela divisão desproporcional de tarefas e a disputa de heranças, estão reunidas as condições para surgirem relações de animosidade entre irmãos. Quando a dinâmica familiar já está tensa porque um elemento da família se sente injustamente sobrecarregado, podem surgir questões relacionadas com dinheiro que ainda agravarão mais os conflitos. Um irmão que disponibiliza a maior parte dos cuidados a um pai ou a uma mãe pode julgar que tem direito a uma maior parcela de uma futura herança, enquanto os restantes irmãos que residem mais longe ou não estão tão envolvidos podem pensar que o irmão cuidador está a gastar dinheiro em excesso no cuidar.

Situação comum nos cuidados informais é o familiar cuidador principal pedir ajuda e os outros familiares/irmãos não responderem satisfatoriamente ou mesmo ignorarem o pedido. Quando um irmão sente que a sua responsabilidade na atividade de cuidar é desproporcional em comparação com as dos restantes membros da família, surge a sensação de injustiça que cria condições para o ressentimento.



Existem vários factores que podem contribuir para o sentimento de injustiça e ressentimento, e entre eles está a distância entre residências: os irmãos que vivem mais longe dos pais, por regra não participam tão activamente, e quando o cuidador principal pede ajuda, por vezes a resposta não é satisfatória.

Outra possível fonte de conflitos surge devido a razões económicas. Quando o ambiente familiar já se encontra tenso e o irmão/familiar cuidador se sente injustamente sobrecarregado financeiramente, a falta de dinheiro pode criar conflitos familiares. Se vivêssemos num mundo perfeito, todas as pessoas seriam altruístas e o dinheiro seria um bem dispensável, mas esse quadro está longe da realidade. Os problemas provocados pela parte económica podem mesmo estender-se a questões de herança. Para gerir estes problemas é fundamental que haja comunicação, e as reuniões de família permitem identificar os problemas antes que eles se tornem insolúveis e corrigi-los.

Uma forma de diminuir a tensão e evitar que se criem desavenças que se podem tornar irreconciliáveis é estimular a comunicação, e as reuniões familiares são a melhor forma de manter ou facilitar o intercâmbio de ideias. As reuniões familiares devem ser momentos de discussões francas e abertas sobre as necessidades da actividade de cuidar um pai ou uma mãe. Os papéis e as obrigações de cada familiar devem ser bem definidos assim como a planificação do futuro. Em última análise, é importante manter o foco e nunca perder a noção do que é melhor para o familiar dependente e ultrapassar possíveis ressentimentos em relação a um irmão ou irmã que não cooperem.

Quando as reuniões familiares se tornam impossíveis de realizar, independentemente das razões que impeçam essa possibilidade, devem ser contratados os serviços de uma entidade conselheira ou mediadora profissional. O objetivo é aconselhar de forma especializada, resolver as diferenças de opinião entre os membros da família e construir consensos. Se não adiantar em nada de positivo a troca de argumentos entre irmãos, não adianta insistir porque a possibilidade de sucesso pode ser nula. Nessa situação a única pessoa que podemos mudar é a nós mesmos.


 

 


Nove sugestões para melhorar a cooperação entre os familiares:

1.     Pergunte! Inclua os seus pais na tomada de decisões caso mantenham capacidades cognitivas.

2.     Fale das suas necessidades. Os seus irmãos deveriam eventualmente saber o que você precisa, mas eles podem não fazer ideia. Talvez pensem que você não precisa de ajuda.

3.     Mantenha-se em contato. Atualmente, existem sites que permitem que os membros da família tenham acesso a informação útil sobre cuidados. Realize regularmente conferências familiares de preferência pessoalmente. Caso não seja possível utilize sistemas de videoconferência como o Skype.

4.     Divida as responsabilidades de acordo com os pontos fortes de cada pessoa. Deixe os seus irmãos escolher as tarefas que desejam realizar (pagar contas on-line, comunicar com os médicos, etc).

5.     Prenda a língua. É assim tão importante que os seus irmãos tenham as mesmas opiniões ou perspetivas? A menos que seja um problema de segurança ou de saúde, segure a sua língua!

6.     Faça um intervalo! Se uma questão se tornar controversa ou foco de discussão, acalme-se, faça um intervalo e volte a abordar o assunto noutro momento. Peça desculpa caso seja necessário.

7.     Cuide de si e espaireça. Participe em fóruns ou visite sites de cuidados de saúde, aprenda a lidar com situações difíceis, ligue para um amigo, marque uma consulta com um terapeuta, fale com um padre ou procure um serviço de mediação de conflitos familiares.

8.     Não espere milagres! Se a sua irmã sempre foi egoísta, ela provavelmente não vai mudar, mas isso não significa que deixe de tentar construir pontes de diálogo.

9.     Seja empático. Tenha também consciência das circunstâncias dos seus irmãos e dos seus pais. O momento é stressante para todos.


Fontes:

Cruz Roja de Espanha

https://www.aplaceformom.com/blog/7-9-14-stop-fighting-with-siblings/

https://www.nytimes.com/2015/05/30/your-money/strengthening-troubled-sibling-bonds-to-deal-with-an-aging-parent.html

http://www.aplaceformom.com/blog/when-siblings-clash-about-parents-care/




Atrigo Estratégia Para Acompanhar Um Familiar Idoso que Mora Longe neste link https://www.cuidador.pt/blogue/28-estrategia-para-acompanhar-um-familiar-idoso-que-mora-longe

Log in or Sign up