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5 sugestões para lidar com alucinações na demência

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Maria (nome fictício) vivia num lar e tinha uma história de demência leve até que um surto de pneumonia a levou a ser internada num hospital. Quando ela teve alta e regressou ao lar, veio com um declínio cognitivo acentuado. Um estudo realizado pela Professora Dra. Helena Saldanha no Hospital Universitário de Coimbra comprovou que o internamento prolongado de pessoas idosas em hospitais, pode provocar perdas de referências temporais e espaciais não recuperáveis na sua totalidade.

Todas as manhãs, a auxiliar de geriatria do lar perguntava como Maria tinha passado a noite enquanto realizava as tarefas de arrumo no quarto. Em resposta, Maria chorava e demonstrava sinais de exaustão por não conseguir dormir. Maria tinha alucinações, pensamentos delirantes e referia com detalhe que um homem tinha estado sentado à sua janela durante a noite. O homem era jovem, tinha cerca de 20 e poucos anos e queria que ela o deixasse entrar no quarto.

Maria pedia-lhe para a deixar sozinha e o homem ameaçava contar a toda a gente que a tinha visto nua se não o deixasse entrar... Maria gritava desesperadamente.

Durante o dia, mesmo depois de confortada, Maria acreditava que o homem continuava lá e descrevia detalhes sobre a vida dele. Os funcionários do lar não conseguiam encontrar uma explicação sobre como é que ela “sabia” desses detalhes.

Foram feitas várias tentativas falhadas de resolver as alucinações e os delírios utilizando o raciocínio racional. Recordemos que enquanto as alucinações estão relacionadas com os sentidos (ouvir ou ver "coisas"), os delírios são processos cognitivos (pensar que querem roubar ou fazer mal).

Foi-lhe dito que era improvável se não impossível a presença desse homem dada a difícil acessibilidade à janela do seu quarto e, embora ela concordasse inicialmente, a realidade acabava por ser substituída pelo delírio.

O pessoal do lar fez tudo para transmitir segurança a Maria. Foi instalada uma grade e cortinas opacas na janela. As luzes “quentes” (para não interferir com a produção da hormona do sono melatonina) do quarto passaram a ficar acesas à noite e para que não se ouvisse a voz do homem ligava-se música suave.

Mas todas estas estratégias tornaram-se ineficazes e Maria continuava a ouvir a voz do homem que ameaçava contar a todos que ela era "suja" e "promíscua".

O médico de Maria prescreveu uma série de medicamentos para tentar parar as alucinações, mas ela era muito sensível a mudanças na medicação e teve reações adversas aos psicotrópicos, antidepressivos e comprimidos para dormir.

Maria foi por fim diagnosticada com demência de Corpos de Lewy. Certos medicamentos ajudam alguns doentes a ter menos alucinações e delírios provocados por algumas formas de demência, no entanto é comum a intolerância medicamentosa na demência de corpos de Lewy. O cérebro e o corpo de Maria estavam em constante atividade e não tinham um “botão de desligar”. Enquanto o nosso mundo está bem regulamentado, o mundo de Maria é caótico e perturbador. O melhor que se pode fazer em situações como como a de Maria é implementar atividades para manter a mente ocupada na realidade e esperar que ela acabe por participar nessas atividades. As alucinações e os delírios acontecem mais frequentemente durante a noite e exigem uma adaptação na vida de toda a gente em casa.

 

 

5 sugestões para lidar com alucinações na demência:

1)   Mantenha o ambiente do seu familiar doente seguro. Alguém como Maria está em risco de ter comportamentos erráticos. Tenha em atenção o acesso a saídas e escadas.

2)   Contrariar pode ser altamente ineficaz e levar ao aumento da ansiedade. O cuidador não tem que "ver também" a alucinação, mas é necessário concordar, ou seja validar o conteúdo emocional do doente.

3)   Em situações de alucinações, o cuidador deve procurar distrair o doente com atividades que necessitem de habilidades motoras como por exemplo jogar à bola, dar um passeio, colocar post-its na parede, dançar...

4)   Animais de estimação são uma das melhores maneiras de proporcionar conforto a alguém que está ansioso. Um cão ou um gato podem fazer maravilhas na redução da ansiedade e de pensamentos delirantes.

5)   Utilize o contacto e afeto sem ser intrusivo. Muitas vezes um simples contacto emocional ajuda o doente a sentir-se seguro por algum tempo, permitindo que tenha algum descanso.



 Baseado nas fontes:

Alzheimer Association

Bem Viver para Bem Envelhecer, Helena Saldanha

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