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Serviço Nacional de Saúde, ou Serviço Nacional de Doença?

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     Há uns dias atrás, enquanto esperava para ser atendido numa farmácia perguntei a mim próprio: porque motivo é que os atuais recursos humanos (diferenciados) das farmácias se limitam (essencialmente) a aviar receitas? O papel das farmácias no Serviço nacional de Saúde pode e deve ir além da sua função clínica. A sociedade portuguesa mudou de forma acentuada em poucos anos e as politicas sociais e de saúde não tem acompanhado a transformação.  

     O processo acentuado de evolução sociodemográfica teve o seu início em meados do século XX com o princípio da industrialização da sociedade portuguesa e o fluxo migratório de população essencialmente jovem. Se por um lado o movimento migratório marcou o início do envelhecimento demográfico português como processo irreversível e quase constante, por outro lado a industrialização da economia provocou  alterações nas características da família. A família nucleariza-se e o paradigma histórico de o apoio aos idosos se verificar através de redes sociais familiares e da instituição da Igreja muda com a entrada da mulher (tradicional cuidadora) no mercado de trabalho.

     O apoio ao envelhecimento começa a sair da esfera famíliar e transforma-se num problema/desafio social numa altura em que Portugal ainda era uma sociedade demograficamente jovem no contexto do espaço europeu.

   A partir da década de 1970 o envelhecimento da população portuguesa torna-se mais evidente e em 2001 a percentagem de idosos ultrapassa pela primeira vez a percentagem de jovens com idades acima de 15 anos. A evolução sociodemográfica ganha velocidade com a quebra contínua dos níveis de mortalidade, fecundidade e natalidade, e aumento da esperança de vida à nascença. Portugal passou de país demograficamente jovem até à década de 1970 para envelhecido depois dos anos 80.

     Mas se por um lado Portugal alcança com sucesso o aumento da esperança de vida da sua população, por outro lado também acaba por situar-se entre os países europeus com piores resultados no indicador da esperança de vida saudável. Por esse motivo os anos de vida ganhos em longevidade passaram a traduzir-se também no aumento da prevalência de comorbidades e síndromes geriátricas entre a população mais idosa. Portugal transforma-se num dos países com piores índices de qualidade de envelhecimento da Europa, e consequentemente o ganho civilizacional que tem sido o aumento do número de anos de vida tem sido ensombrado pelo envelhecimento secundário ou patológico. 

     A ciência diz que o tempo máximo de vida dos seres humanos ronda os 120/130 anos e essa baliza temporal é definida pelos genes da longevidade que fazem parte do nosso ADN assim como pelo ambiente físico e social. O objetivo que falta cumprir é percorrer esse tempo de vida com saúde. Um sinal que revela a exequibilidade dessa meta é a diferença na qualidade de envelhecimento entre países europeus com o mesmo índice de longevidade.

 

 

    A Saúde é um estado biopsicossocial, e a “complexidade que envolve o fenómeno do envelhecimento e as demandas de cuidado provenientes das condições de saúde das pessoas idosas requerem ações que contemplem a interdisciplinaridade nos serviços de saúde, em todos os níveis de atenção” (Salcher et al.,2015, p.260). A Organização Mundial de Saúde define o conceito de Saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

     O nosso Sistema Nacional de Saúde não está a acompanhar a democratização da velhice, tem na sua essência uma perspectiva clínica de saúde, e reduz tendencialmente o envelhecimento à doença. Um estudo realizado em 2022 com cinco países europeus concluiu que Portugal possui o pior resultado no envelhecimento saudável. Esse estudo foi publicado num jornal no dia 26 de março e pode ser lido aqui: https://www.publico.pt/2022/03/26/sociedade/noticia/portugal-pior-resultado-envelhecimento-saudavel-estudo-cinco-paises-europeus-2000256

     Este tema podia levar-nos para outra área social/saúde que são as razões que estão a colocar o SNS (ou SND?) em crise há mais de uma década. 

 


 Leia também: 

"CONSEQUÊNCIAS DO COMPORTAMENTO NO ENVELHECIMENTO DEMOGRÁFICO" neste link 👉https://www.cuidador.pt/blogue/351-consequencias-do-comportamento-no-envelhecimento-demografico

 “ERA UMA VEZ UMA FÁBRICA INCLUSIVA …” neste link 👉 https://www.cuidador.pt/blogue/14-era-uma-vez-uma-fabrica-inclusiva-2

 

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