
Francisco Omar Carnovale
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Francisco Omar Carnovale era motorista de táxi no turno da noite na cidade Buenos Aires e os seus passageiros transformavam muitas vezes o automóvel num confessionário.
O taxista conheceu pessoas cujas vidas o surpreenderam, fizeram-no rir e também o deprimiram, mas nenhum cliente lhe tocou tanto como a mulher que transportou numa certa noite quando recebeu uma chamada de um pequeno edifício situado numa parte da cidade de Buenos Aires.
Pela hora Francisco Omar Carnovale pensou que ia transportar pessoas que saíam de uma festa, alguém que abandonava a casa devido a uma zanga conjugal, ou um trabalhador que tinha que chegar muito cedo à sua fábrica.
Chegado à direção dada por volta das 2:30 da madrugada, encontrou um prédio escuro com exceção de uma luz que vinha de uma janela do primeiro andar.
Em situações semelhantes a esta, muitos motoristas com receio pela sua segurança apitam a buzina do taxi uma ou duas vezes, esperam um momento, e depois vão-se embora se pressentirem que a sua vida pode correr perigo.
Embora a situação parecesse perigosa, Francisco saiu do táxi e dirigiu-se à porta do prédio porque pressentiu que este passageiro poderia precisar de ajuda.
Ao bater à porta obteve a resposta de uma voz frágil, ouviu de seguida um objeto a ser arrastado pelo chão e depois de uma longa pausa, surgiu à sua frente uma pequena mulher que parecia uma personagem de um filme dos anos 40 do século XX. Tinha cerca de oitenta anos, usava um vestido florido, um chapéu com um véu e carregava uma pequena mala.
O apartamento parecia que não era habitado há anos, os móveis estavam cobertos por lençóis e as paredes estavam despidas de relógios e quadros.
A idosa agradecia-lhe repetidamente pela bondade e o taxista respondia com as palavras "de nada", e "eu apenas tento tratar os meus passageiros da mesma forma que eu gostaria que a minha mãe fosse tratada".
Quando entraram no táxi, a idosa deu a direção do destino e perguntou: "pode fazer um desvio e passar pelo centro da cidade?"
-" Esse caminho não é o mais rápido", respondeu Francisco.
-"Não importa", disse a idosa "Não tenho pressa. Estou a caminho de um lar para idosos".
Francisco olhou pelo espelho retrovisor e verificou que dos olhos da idosa caíam algumas lágrimas... "Não tenho família", continuou a idosa "e o médico disse-me que não me resta muito tempo de vida".
Sem pensar, Francisco desligou o contador que marcava o preço da viagem e perguntou:
"Qual é o caminho que quer seguir?"
Nas duas horas seguintes, o táxi percorreu o centro da cidade e a idosa indicou o edifício onde tinha trabalhado, o bairro onde tinha vivido com o seu marido quando ainda eram recém-casados e pediu que parasse à frente de uma loja de móveis que tinha sido um salão de baile frequentado por ela quando era adolescente.
Por vezes pedia que conduzisse mais devagar quando passava à frente de um prédio em particular ou de um recanto enquanto olhava sem dizer nada.
Com o primeiro raio de sol a aparecer no horizonte, a idosa de repente disse:
-"Estou cansada, chegou o momento de ir".
Francisco conduziu em silêncio e parou em frente a uma pequena casa de onde saíram dois assistentes do lar em direção do táxi.
Abriram a porta do carro e assim que a idosa saiu sentaram-na com cautela numa cadeira de rodas.
- “Quanto lhe devo?” Perguntou, idosa enquanto procurava a sua mala.
- “Nada”, respondeu Francisco.
- “É o seu trabalho, deve cobrar” insistiu a idosa.
- “Haverá outros passageiros”, respondeu Francisco.
Quase sem pensar, Francisco sentiu um grande desejo de abraçá-la e despediu-se pressentindo que nunca mais a veria. A porta da instituição fechou-se com o som de uma vida concluída e Francisco não transportou mais nenhum passageiro e seguiu sem destino o resto do dia.
O que teria acontecido se a idosa tivesse apanhado um motorista mal-humorado ou ansioso por terminar o seu turno de trabalho?
O que teria acontecido se, dado o adiantar da hora e o local da habitação, Francisco tivesse recusado fazer o serviço ou tivesse tocado a buzina uma única vez e ido embora sem esperar?
Os momentos mais marcantes na vida surgem quando menos se espera e uma pessoa pode não se lembrar exatamente o que fizeste ou o que disseste, mas lembrar-se-á sempre como a fizeste sentir. Mantém sempre na memória o perfume da flor mesmo que a rosa já esteja murcha.