
No tempo do bisavô do meu tetravô havia uma tradição que dizia que, quando um senhor ficava velho de mais para trabalhar, os filhos levavam-no às costas pela serra acima até um casebre e deixavam-no lá abandonado para falecer longe de casa e da família, em paz, julgavam eles. Nessa altura, havia lobos na serra e alguns dos idosos eram devorados pelos animais.
Certo dia, um homem levava o seu velho pai às costas, subindo a serra, para o largar. Quando chegou ao alto, deitou o pai e, com pena, tapou-o com uma manta que levava, despedindo-se e afastando-se, a pé. De repente, o pai chamou-o. O filho voltou para junto dele. Então, rasgando a manta ao meio, o triste e resignado velhinho disse-lhe:
- Toma, filho, só preciso de metade.
- Mas... pai, assim vai ter frio! Fique com a manta inteira.
- Não, filho, leva esta metade; chega-me meia. Guarda a outra parte para quando os teus filhos te vierem cá abandonar.
O filho pegou na metade da capa e desceu a serra, angustiado. Sentou-se e pensou : " O meu pai tem razão: quando eu tiver a idade dele, os meus filhos também me abandonarão na serra e, acima de tudo, ele é meu pai." Arrependido, voltou a subir a serra, pôs o pai às costas e levou-o de novo para casa.
A partir desse dia, nunca mais nenhum filho abandonou o seu pai na serra e foi proibida aquela absurda tradição por todas as terras do mundo.
Três notas:
1 - Este conto teve como fonte o link https://historiaslindasfeiasfantasticas.blogs.sapo.pt/8910.html.
2 - Não consegui descobrir a autoria do mesmo.
3 - Atualmente as "serras" deste conto são as instituições para pessoas idosas (lares ou ERPIs), com a regra de os filhos espaçarem no tempo cada vez mais as visitas. Porém, é de sublinhar que a institucionalização tem causas complexas e interligadas, e em situações limite de pobreza, abandono e desinserção social, pode ser a melhor solução. A forma de estruturação e organização da sociedade pelo Estado deve ser valorizada na análise deste tema.