Os cientistas do Instituto Sunnybrook em Toronto concluíram através de um estudo que a má qualidade do sono impede que o cérebro limpe as toxinas que resultam da sua atividade e estabeleceram uma relação entre a insónia e a sensibilidade ao stresse. A maioria dos nossos órgãos usa o sistema linfático para enviar os resíduos do metabolismo (detritos que resultam da atividade das células) para a corrente sanguínea para serem expelidos para fora do organismo. Mas o cérebro utiliza uns canais que rodeiam os vasos sanguíneos chamados espaços de Virchow-Robin perivasculares (VRS), sistema apelidado de glymphatic para remover os resíduos do metabolismo das células do cérebro: os neurónios. É durante o sono que acontece a maior parte da drenagem das toxinas do cérebro e quando o sono é de má qualidade, a drenagem não ocorre de uma maneira eficaz. Uma das consequências das diversas formas de demência é a diminuição da qualidade do sono e alteração do ritmo circadiano, e por esse motivo é preciso pedir sempre que for necessário a ajuda de um profissional da área da saúde ou a uma equipe multidisciplinar.

Um estudo internacional realizado em Espanha, Brasil e Austrália demonstrou os efeitos positivos da melatonina na saúde cognitiva. A melatonina é uma hormona natural produzida principalmente durante o sono. A exposição á luz energética (ex.: luz natural ou lâmpadas de luz branca) influenciam a produção da hormona do sono melatonina, o que pode no limite estar associado não somente a transtornos do sono como também a problemas cardiovasculares, gastrointestinais e digestivos, diabetes, obesidade e depressão.
A melatonina tem um efeito protetor do envelhecimento dos neurónios porque reduz a inflamação do cérebro e é comum os doentes de Alzheimer terem alterações no padrão de sono. Grande parte da atual investigação sobre perdas cognitivas e demência está focada em melhorar a qualidade dos vasos sanguíneos através de uma dieta saudável e do exercício físico, enquanto o papel do sono tem sido um pouco negligenciado.
Com o envelhecimento o sono pode tornar-se mais leve e fragmentado, mas essas mudanças naturais não têm necessariamente consequências na saúde. Mas quando não se dorme o suficiente, independentemente da idade ou do estado de saúde, surgem alterações no comportamento, cognição e na estabilidade emocional. Quando a pessoa tem demência a situação piora, porque se o doente não dorme, o cuidador também não dorme, e o resultado é uma fonte de tensão prolongada no tempo que pode levar ao esgotamento do cuidador e o seu familiar pode sentir essa alteração e ficar mais agitado.
Entre as formas conservadoras (não medicamentosas) de estimular o sono encontra-se a ligeira pressão que o peso de um édredon ou cobertor faz no corpo porque estimula a produção da hormona do bem-estar serotonina.
Como melhorar o sono de um familiar com demência:
· Para melhorar a qualidade do sono é preciso primeiro detetar a causa subjacente à insónia. Fale com o médico sobre os distúrbios do sono do seu familiar;
· Aproxime-se do familiar doente de forma calma e procure saber se ele ou ela precisa de alguma coisa;
· Lembre-o(a) da hora avançada da noite; não discuta e tranquilize-o(a);
· Mantenha uma temperatura confortável no quarto de dormir;
· Instale fechaduras adequadas nas portas e janelas e sensores de movimento para o caso de o familiar deambular durante a noite;
· Estimule a exposição à luz solar para ajudar a manter o ritmo sono-vigília. O tempo de exposição deve ser indicado por um médico porque depende de variáveis como a hora do dia, cor da pele, idade, etc.;
· Estimule a atividade física durante a manhã ou início da tarde. Caminhar ou praticar exercício físico moderado durante o dia ajuda a melhorar o sono noturno;
· Não utilize luzes estimulantes ou frias no ambiente horas antes de descansar. As lâmpadas devem ser de cor quente e o ambiente silencioso à noite. A melatonina (hormona do sono) é produzida em ambientes com ausência de luz ou iluminação quente;
· Estabeleça um horário para a altura de despertar e adormecer;
· Utilize o quarto só para dormir. Não tenha televisão nessa divisão da casa. A luminosidade da televisão é estimulante;
· Sirva o jantar com comida de fácil digestão e sem bebidas estimulantes. Evite a cafeína, o álcool e o tabaco (nicotina);
· Não utilize formas de imobilização forçada ou de contenção física;
· Uma pessoa que descansa a maior parte do dia, provavelmente ficará mais facilmente acordado durante a noite. Desencoraje o seu familiar de fazer sestas durante o dia e programe atividades como a ida ao médico, passeios, ou tomar banho para a parte da manhã ou início da tarde;
· Finalmente, esteja atento ao seu próprio esgotamento mental e físico. Se o cuidador estiver stressado ao final da tarde, o familiar doente pode sentir esse estado e ficar agitado.

Possíveis situações causadoras de insónia que podem ser corrigidas:
· Alguns medicamentos podem afetar o sono devido aos efeitos secundários;
· Certas doenças crónicas podem interferir com a qualidade do sono. Alguns exemplos:
1) Doenças cardíacas e pulmonares como a insuficiência cardíaca ou a doença pulmonar obstrutiva crónica;
2) Condições relacionadas com o estômago como o refluxo gastroesofágico;
3) Dor crónica (artrite, etc.);
4) Hipertrofia da próstata ou bexiga hiperativa (despertares noturnos contínuos para urinar);
5) Infeções do trato urinário ou problemas de incontinência;
6) Ansiedade ou a depressão;
7) Alcoolismo;
8) Síndrome das pernas inquietas;
9) Apneia do sono.
Fontes:
Hard Facts About Sleep Problems in the Elderly,
Can Lack of Sleep Lead to Alzheimer’s,
Top 7 Physical Alzheimer’s Symptoms ,
https://www.alz.org/care/alzheimers-dementia-sleep-issues-sundowning.asp,
Artigo “A INSÓNIA ESTÁ RELACIONADA COM O AUMENTO DA MORBIDADE E MORTALIDADE” neste link: https://www.cuidador.pt/blogue/315-a-insonia-esta-relacionada-com-o-aumento-da-morbidade-e-mortalidade
Artigo “OS PROBLEMAS DO SONO…” neste link: https://www.cuidador.pt/blogue/186-os-problemas-do-sono