
Será necessário provocar sofrimento a um familiar com demência, especialmente quando a verdade que é dita é suscetível de ser mal interpretada ou rapidamente esquecida?
Utilizar mentiras terapêuticas para tranquilizar os sentimentos não é o mesmo que mentir por um motivo mal-intencionado ou malicioso.
O cérebro de uma pessoa com alzheimer ou outra forma de demência pode criar novas versões da realidade que não devem ser corrigidas. Se a forçarmos a aderir ao nosso mundo “real", o resultado será confusão, ansiedade, medo e raiva.
O cuidador ao utilizar a mentira terapêutica pode sentir-se mal, mas dizer a verdade ao seu familiar com demência pode ser mais cruel.
Mentir é ser desonesto, e quando a mentira é dita a alguém que amamos, o sentimento pode ser de crueldade. Mas tentar que a pessoa doente adira à realidade é suscetível de provocar dor, confusão e angústia especialmente se o assunto for emocional.
Além disso, devido aos problemas de memória, o familiar vai esquecer-se da conversa, e por isso a situação surgirá novamente. Voltar a dizer a verdade vai fazê-lo sentir-se novamente com medo e ansioso. A demência impede o cérebro de processar, recuperar, e reter informação corretamente.
Será necessário provocar sofrimento, especialmente quando a verdade que é dita é suscetível de ser mal interpretada ou rapidamente esquecida?
Uma maneira eficaz de entrar na realidade da pessoa doente é concordar com o que ela diz e dizer inverdades ou mentiras inofensivas. Dessa maneira evita-se o sofrimento e cria-se um sentimento de segurança.
Os dois exemplos que se seguem ilustram a diferença entre ser completamente verdadeiro e utilizar mentiras terapêuticas.
1. Ser completamente verdadeiro:
A mãe com alzheimer: a escola acabou. A minha mãe vem buscar-me agora. Preciso de ir lá para fora para esperar por ela!
O cuidador: a mãe tem 89 anos de idade. Já não vai à escola há décadas. A mãe não se lembra que a sua mãe morreu há 25 anos? Não precisa de ir lá para fora porque ninguém vem buscá-la.
A mãe com alzheimer: O quê? O que quer dizer com “a minha mãe está morta”? Não! Ela não pode estar morta!! Eu vi-a esta manhã! Ela disse-me que vinha buscar-me!!! Eu preciso de ir lá para fora para esperar por ela!! (Choro, agitação, gritos)
2. Estratégia que utiliza uma mentira terapêutica:
A mãe com alzheimer: a escola acabou. A minha mãe vem buscar-me agora. Preciso de ir lá para fora para esperar por ela!
O cuidador: Oh sim, está quase na hora de ir. A sua mãe pediu-me para lhe dar um lanche antes para não ficar com fome durante o caminho de casa. Vamos fazer um pouco de sumo e biscoitos (utilizar este discurso para criar uma oportunidade para a distrair e a ocupar com o lanche até que a mãe deixe de ter essa ideia).
A mãe com alzheimer: Ok, vou fazer um lanche.
A informação do exemplo foi tirada da fonte: http://dailycaring.com/why-experts-recommend-lying-to-someone-with-dementia/
Artigo “A VALIDAÇÃO COMO TÉCNICA DE COMUNICAÇÃO EM SITUAÇÕES DE DEMÊNCIA” neste link de acesso https://www.cuidador.pt/blogue/327-a-validacao-como-tecnica-de-comunicacao-em-situacoes-de-demencia?fbclid=IwAR3J-mQVFtKIhp2u_3tnbS8eGblHDGeu9oHaG-cY9XM3MNt6csiN0r9fQsk